terça-feira, 16 de outubro de 2012

O modelo da integridade

 O homem moderno está despedaçado, fragmentado. Está-lhe vedada uma vida íntegra, qualquer que seja o país em que vive, a educação que recebe, a classe social a que pertence. Ele observa como uma fatalidade esta fractura, irremediável desde o princípio, se tiver capacidade de reparar nela. O indivíduo e a colectividade afastaram-se com o passar dos séculos, seguindo caminhos divergentes, e continuam por isso a afastar-se. Aquilo que a colectividade espera do indivíduo, pressupõe nele, é sempre diferente daquilo que ele descobre em si próprio como autêntico, original. E quem é alguma coisa mais do que uma formiga, quem quer deixar atrás de si um vestígio durável entre as aparências, o seu rastro de cometa ou de caracol, acaba reduzido a cacos pelo mundo humano, não pela sua hostilidade, mas simplesmente pela sua estranheza, pelas suas regras, pelos seus comportamentos, pelos seus hábitos. Na colectividade, já não ressoa, não refulge, a expressão do indivíduo, perdeu-se a harmonia do mundo antigo.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche [alguns excertos]

 

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