terça-feira, 16 de outubro de 2012

O modelo da integridade

 O homem moderno está despedaçado, fragmentado. Está-lhe vedada uma vida íntegra, qualquer que seja o país em que vive, a educação que recebe, a classe social a que pertence. Ele observa como uma fatalidade esta fractura, irremediável desde o princípio, se tiver capacidade de reparar nela. O indivíduo e a colectividade afastaram-se com o passar dos séculos, seguindo caminhos divergentes, e continuam por isso a afastar-se. Aquilo que a colectividade espera do indivíduo, pressupõe nele, é sempre diferente daquilo que ele descobre em si próprio como autêntico, original. E quem é alguma coisa mais do que uma formiga, quem quer deixar atrás de si um vestígio durável entre as aparências, o seu rastro de cometa ou de caracol, acaba reduzido a cacos pelo mundo humano, não pela sua hostilidade, mas simplesmente pela sua estranheza, pelas suas regras, pelos seus comportamentos, pelos seus hábitos. Na colectividade, já não ressoa, não refulge, a expressão do indivíduo, perdeu-se a harmonia do mundo antigo.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche [alguns excertos]

 

A vida está no passado

Sapiente é aquele que lança uma luz no negrume do passado. Indecifrável, fugitiva, é a natureza daquilo que já foi. Se olhamos para o passado, se procuramos recuperá-lo, parece-nos então perder a vida; se olhamos para a vida, descobrimos o passado. Aquilo que transcorreu há um instante ou há um milénio, perder-se-á de modo idêntico. No grito da felicidade, no urro do desespero, eis que, naquele instante que é já uma ressonância, a vida imediata se desvaneceu agora, desaparecida para sempre. Mas nós agarramo-nos àquele passado, não queremos perdê-lo: toda a nossa existência consciente não é senão eco, propagação daquela vida. As ondas vão-se atenuando em gritos, em momentos, em paixões ardentes, em recordações, em fantasias, em pensamentos. E, no fluir em degradação daquelas repercussões, novas sacudidelas intervêm, de modo que os encrespamentos se entretecem e se confundem. Se nos embrenhamos ainda mais para trás, para descobrir a vida nascente, da qual se originou a onda que nos envolve, naufragamos no negrume do irrepresentável; não nos ajuda ter abandonado o sobressalto evanescente daquilo que se está a viver. Se, ao invés, voltamos as costas ao passado e dissecamos aquilo que está à nossa frente, para surpreender a vida enquanto flui em nós, então qualquer rosto, forma, solidez, cor, figura da vida que nos rodeia, parece, onde quer que seja, decompor-se em fragmentos de passado. O carácter concreto do mundo presente é uma abstracção disfarçada, longamente elaborada antes de nós e por nós, cada frémito é uma mentira, cada imagem uma miragem.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche (alguns excertos)


   

Ignorância

O meu sentimento de não-pertença a este território em que habito agudiza-se nestes dias de súbita esquizofrenia política e social. De repente é como se eu fosse a única espectadora na plateia, numa sala vazia, e todos subissem para o palco para fazer parte da farsa. Vejo-me assim condenada a uma estranha desigualdade. A que resulta da IGNORÂNCIA que me isola, de não conseguir sentir o que eles sentem e de perceber que eles nunca vão poder sentir o que eu sinto.