terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vida está no passado

Sapiente é aquele que lança uma luz no negrume do passado. Indecifrável, fugitiva, é a natureza daquilo que já foi. Se olhamos para o passado, se procuramos recuperá-lo, parece-nos então perder a vida; se olhamos para a vida, descobrimos o passado. Aquilo que transcorreu há um instante ou há um milénio, perder-se-á de modo idêntico. No grito da felicidade, no urro do desespero, eis que, naquele instante que é já uma ressonância, a vida imediata se desvaneceu agora, desaparecida para sempre. Mas nós agarramo-nos àquele passado, não queremos perdê-lo: toda a nossa existência consciente não é senão eco, propagação daquela vida. As ondas vão-se atenuando em gritos, em momentos, em paixões ardentes, em recordações, em fantasias, em pensamentos. E, no fluir em degradação daquelas repercussões, novas sacudidelas intervêm, de modo que os encrespamentos se entretecem e se confundem. Se nos embrenhamos ainda mais para trás, para descobrir a vida nascente, da qual se originou a onda que nos envolve, naufragamos no negrume do irrepresentável; não nos ajuda ter abandonado o sobressalto evanescente daquilo que se está a viver. Se, ao invés, voltamos as costas ao passado e dissecamos aquilo que está à nossa frente, para surpreender a vida enquanto flui em nós, então qualquer rosto, forma, solidez, cor, figura da vida que nos rodeia, parece, onde quer que seja, decompor-se em fragmentos de passado. O carácter concreto do mundo presente é uma abstracção disfarçada, longamente elaborada antes de nós e por nós, cada frémito é uma mentira, cada imagem uma miragem.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche (alguns excertos)


   

Sem comentários:

Enviar um comentário